8/12 Mulheres Confessam Dificuldades Sobre O Cabelo Que Nunca Contaram A Ninguém

Aqui está um dos maiores projetos do Live Like Chellito que tenho orgulho de apresentar a todos os nossos leitores. As mulheres escolhidas para este projeto passaram por boas e más experiências ao longo destes anos com os seus cabelos. Elas aceitaram o desafio em abrirem se  para a nossa equipa e expressar os seus sentimentos sobre o cabelo, pessoal e socialmente! Espero que gostem e aprendam dicas incríveis destas mulheres poderosas e lindas!

Sintam-se à vontade para compartilhar a vossa história conosco na caixa de comentários. A ideia é alcançar o máximo de mulheres possível em todo o mundo com a hashtag #myafrohairrmatters

gallery-1485522850-gettyimages-151293368.jpg

Beleza

8/12 Mulheres Confessam Dificuldades Sobre O Cabelo Que Nunca Contaram A Ninguém


 

Márcia Cardoso  - Cabo Verde

IMG_E0525.JPG
 

O meu cabelo sempre influenciou a minha auto-estima, desde nova quando colocavam na nossa cabeça que o bonito era o cabelo liso até agora né. Na época era "quanto mais liso melhor" então eu tomava um "banho" de alisante para eu me sentir bonita hahaha na época eu era inocente e não via mal nenhum. Quando eu vim para Portugal cortei o meu cabelo e comecei a deixar crescer naturalmente. Como eu era uma das poucas pretas da minha escola, principalmente vivendo aqui no norte, o pessoal da minha turma e até da minha escola passavam a vida a tocar no meu cabelo e eu achava isso tão estranho. Levava com perguntas do género "como consegues lavar esse cabelo?", " como consegues pentear esse cabelo?" e eu ficava frustrada porque eu pensava "é impossível não saberem isso, é senso comum". Mas na época o meu cabelo era pequeno então não chamava muita atenção mas quando começou a crescer e eu andar sempre com ele solto (afro) eu atraía muitos olhares positivos e outros nem tanto, gozavam quando eu passava na rua mas nunca liguei pq eu me sentia bem.

Já não bastava eu ser preta, viver no norte, ter um cabelo crespo, pintei o cabelo de loiro e aí todos os olhares que eu atraía era de gozo, eu chegava a passar na rua e me chamavam de capim, inicialmente não me afetou mas depois quando o cabelo começou a perder vida por estar loiro, comecei a me sentir deprimida, minha auto-estima desapareceu e entrei em depressão, até que em 2015 ganhei coragem e cortei o cabelo e nem pensei duas vezes. Pensei "recuso-me a sentir assim".

Acredito que cabelo influência bastante, principalmente em relação a aquilo que os outros pensam sobre isso. Muitas vezes podemos até amar aquilo que nós temos mas se a sociedade não amar, mesmo que uma pessoa lute para não se sentir afetada, uma pessoa acaba sempre por se sentir mal de alguma forma. Mas o cabelo influência bastante a auto-estima de uma mulher principalmente de uma mulher africana de cabelo crespo sendo que vivemos durante décadas, ou até mais, a tentarmos nos encaixar no padrão de beleza, o típico cabelo liso (nada contra) mas aquilo com que nascemos é sempre muito melhor. Imensa gente pedia para tocar e eu levava com aquelas perguntas "aiii é o teu cabelo? Cresceu bastante" e eu tinha que explicar mil vezes ao dia que eram extensões e quem já sabia muitas vezes pensava que as pretas que usam extensões não têm cabelo (estereótipos).

 

Márcia CardosoInstagram

My hair has always influenced my self-esteem, since new when they put in our head that the beautiful was straight hair so far right. At the time it was "the smoother the better" so I took a "bath" of smoothing so I felt pretty hahaha at the time I was innocent and saw no harm. When I came to Portugal I cut my hair and started to grow naturally. As I was one of the few blacks in my school, mostly living here in the north, the people in my class and even my school spent their lives touching my hair and I found it so strange. Questions like "How can you wash that hair?", "How can you do that hair?" and I was frustrated because I thought "it's impossible not to know this, it's common sense". But at the time my hair was small so did not call much attention but when it started to grow and I always walk with it loose (afro) I attracted many positive looks and others not so much, enjoyed it when I passed the street but never called because I felt good.

It was no longer enough for me to be black, to live in the north, to have curly hair, to paint the hair of a blonde, and then all the looks I attracted were to enjoyment, I used to pass the street and people calling me grass, initially it did not affect me but when my hair began to lose its life for being blonde, I began to feel depressed, my self-esteem disappeared and I went into depression, until in 2015 I gained courage and cut my hair and did not even think twice. I thought, "I refuse to feel like this."

I believe that hair influences a lot, especially in relation to what others think about it. Many times we can even love what we have but if society does not love, even if a person strives not to feel affected, a person always ends up feeling bad in some way. But the hair greatly influences the self-esteem of a woman, especially of an African woman with curly hair. We live for decades, or even more, trying to fit the standard of beauty, the typical straight hair (nothing against) but what with that we are born is always much better. There were a lot of people asking to play with it and I used to live with those questions "ohh is that your hair? It has grown a lot" and I had to explain a thousand times a day that they were extensions and who already knew many times I thought that the black ones that use extensions do not have hair stereotypes).

 

 

 

Custódia Sambo - Angola 

IMG_E0519.JPG
 

 A mulher Negra é conhecida por ser uma figura forte por várias razões, para mim, é por causa do cabelo. Ser uma mulher Negra é muito desafiante no que toca ao cabelo, isto porque a maior parte do tempo nunca sei o que hei de fazer ao meu cabelo e quando sei o bolso não colabora pelo que tenho de inventar.  Eu lembro-me que quando era mais nova, como tenho um cabelo rebelde, odiava quem me mexesse no cabelo e por isso sempre desejei ter o cabelo liso igual dos caucasianos porque pensava que era mais fácil, o que não é, porque todo o cabelo precisa de ser cuidado.

Não gostar do meu cabelo fez com que aprendesse a cuidar e a brincar mais com o meu cabelo porque para mim se o cabelo não está bom então o resto do outift também não, e isso obrigou-me a explorar e a inventar. É como se pudesse ser uma nova mulher quando quero mudando apenas de penteado, aplicando extensões, tranças, usando afro etc...

Apesar de eu já ter feito as pazes com o meu cabelo, sei que nem todos os fizeram como por isso exemplo as pessoas que não têm nenhuma relação com a cultura africana tendem a apreciar mais o meu cabelo quando está relaxado ou até mesmo quando está com extensões. Já me negaram muitos trabalhos por ter tranças ou afro e isso era considerado pouco higiénico, recebo constante críticas por usar o cabelo natural, críticas por usar extensões, críticas por usar tranças e outros penteados. Como eu disse anteriormente e sinto a necessidade de dizê-lo novamente porque é necessário dar ênfase à está frase, ser uma mulher negra é muito desafiante no que concerne ao cabelo, as vezes o bolso não colabora " eu gasto imenso dinheiro com o cabelo, quer seja em produtos ou extensões, por isso é que em minha casa nunca falta postiço.

 

Custódia SamboInstagram

The Black woman is known to be a strong figure for several reasons, for me, it is because of the hair. Being a Black woman is very challenging when it comes to hair, because most of the time I never know what to do to my hair and when I know the pocket does not work for what I have to invent. I remember that when I was younger, because I have a rebel hair, I hated anyone who touched my hair and so I always wanted to have straight hair the same as Caucasians because I thought it was easier, which is not because all the hair needs to be taken care of.

Not liking my hair made me learn to care and play more with my hair because for me if the hair is not good then the rest of the outift either, and that forced me to explore and invent. It's as if I could be a new woman when I want to change only the hairstyle, applying extensions, braids, using afro etc ...

Although I have already made up with my hair, I know that not all of them have done so for example people who have no relation with African culture tend to enjoy my hair more when it is relaxed or even when it is with extensions. I have been denied many jobs because I have braids or Afro and this was considered unhygienic, I receive constant criticism for using natural hair, criticism for using extensions, criticism for using braids and other hairstyles. As I said earlier and I feel the need to say it again because it is necessary to emphasize this phrase, being a black woman is very challenging as far as hair is concerned, sometimes the pocket does not work "I spend a lot of money on my hair, either in products or extensions, so it is that in my home there is never missing extensions. 

 

 

 

 

Kelly Shannaya - Angola

IMG_E0521.JPG
 

Eu nunca tive grandes problemas com o meu cabelo. Só usei o meu cabelo completamente natural dos 0 aos 12 anos. Morando em Angola, o meu fio era particularmente mais fino que o das outras meninas. Com 12 anos desfrisei o cabelo e desde então sempre o fiz. Com 16 apliquei extensões pela primeira vez, e mudei-me para a Inglaterra. No entanto, Estudando num colégio internacional, havia sempre um certo estereótipos de que raparigas negras não têm cabelo e por isso usavam extensões. Para além disso, o colégio era numa cidade extremamente remota e não havia salões de cabeleireiro para o meu tipo de cabelo. Nós africanas tínhamos que ir a uma cidade vizinha para tratarmos do nosso cabelo. Lembro-me que uma vez, rodei quase todos os salões do centro da minha cidade e nenhum deles tinha um cabeleireiro capacitado para tratar do meu cabelo, a resposta era sempre “pedimos desculpa mas não temos os produtos nem as técnicas para cuidar do teu tipo de cabelo”. 

Não tínhamos como tratar do cabelo em casa porque não havia disponibilidade de produtos para o nosso cabelo nos supermercados como havia para o cabelo das outras raparigas, por isso éramos mesmo obrigadas a viajar para cuidar-mos dele.  A falta de diversidade de produtos que sejam inclusivos o suficiente para todos os tipos de cabelo ainda é um grande problema nas cadeias comerciais. Não devia haver lojas específicas para a venda de produtos específicos ao cabelo negro, indiano, etc. 

As mulheres não deviam sentir necessidade de andar um Km extra ou no meu caso, apanhar um comboio para comprar shampõ porque os supermercados só disponibilizam produtos para cabelo caucasiano. Os cabeleireiros, deviam receber formação para tratar de todo tipo de cabelo independentemente da etnia. As marcas têm a responsabilidade de serem o mais inclusivas e diversas possível. A divisão só cria mais complexo de inferioridade e superioridade entre nós mulheres e isso é causado pela falta de inclusividade na indústria capilar. 

 

Kelly Shannaya- Instagram

I've never had big problems with my hair. I just used my natural hair from 0 to 12 years old. Living in Angola, my hair was particularly thinner than the other girls. At the age of 12 I enjoyed my hair and since then I always have. With 16 I applied extensions for the first time, and I moved to England. However, studying at an international college, there was always a certain stereotype that black girls did not have hair and so they used extensions. In addition, the college was in an extremely remote city and there were no hairdressing salons for my hair type. We as Africans, we had to go to a neighboring town to treat our hair. I remember that I once circled almost all the salons in the center of my city and none of them had a hairdresser trained to treat my hair, the answer was always "we apologize but we do not have the products nor the techniques to take care of your type of hair".

We had no way of treating hair at home because there was no availability of products for our hair in supermarkets as there was for other girls' hair, so we were forced to travel to take care of it. The lack of diversity of products that are inclusive enough for all types of hair is still a major problem in commercial chains. There should not be specific stores for the sale of specific products to black hair, Indian hair, etc.

Women should not feel the need to walk an extra mile or in my case, take a train to buy shampoo because supermarkets only offer products for Caucasian hair. Hairdressers should be trained to treat all types of hair regardless of ethnicity. Brands have a responsibility to be as inclusive and diverse as possible. The division only creates more complex inferiority and superiority among us women and this is caused by the lack of inclusiveness in the capillary industry.

 

 

Eliane TCHISSOLA - ANGOLA

IMG_E0524.JPG
 

Sim, para mim é. Tira me tudo, menos o cabelo. Ele é a minha auto estima. 

Até porque estou nos olhos do mundo.

Tenho pavores. Um deles? Ser descoberta. As perguntas não me assustam: É mesmo teu? Dói a aplicar? E o teu está onde? Foi uma vida inteira de treinos para este momento crucial da minha vida.

 Agora o toque. Ai o toque. Jamais saberei como fugir a situação constrangedora que te leva o “toque”. São segundos reais. Mas anos de luz de remorso. 

Há momentos na vida que o “toque” pode marcar para uma eternidade.

O toque é o momento que pode trazer mais inseguranças na vida de uma jovem africana. Ninguém nos prepara para isso. Nesse momento sabes que a pessoa que tocou sentiu a trança, a rede, talvez até o nó. Tentas arranjar palavras para justificar o teu uso de extensões.

Pensas em falar de problemas de queda de cabelo, mas não tens. E de forma nenhuma te podes fragilizar aos olhos de ninguém. Mas sabes que a pessoa está a pensar “Mas que raio acabei eu de tocar?”. Sabes que vem a sensação de arrepio, estranheza ou até mesmo nojo. E queres realmente te explicar. Mas não dizes nada não falas. Olhas para a pessoa e sorris, esperando que esse momento passe e te compreenda e aceite como és.

 “Aceite como és.” Realmente não és assim. Toda a costura esconde o teu verdadeiro eu. E não há mal nisso, até porque continuamente sofremos de apropriação cultural, então roubarmos um pouco do europeu não fará dano. Se isto nos ajuda a gostar mais de nós...

 Mas continuas com medo do momento do “toque”.  Porque o toque é o descobrir do nosso maior segredo. É o apontar de um defeito. É o momento em que tiras a perfeição da mulher sem mesmo falar.

Até hoje sinto todos os toques que me deram ao longo da vida. Uns mais marcantes que outros. O meu segredo? Evitar ou assumir. Ainda assim adoraria que não houvesse toque. Sinto me como em julgamento, quando levada a confirmar se é verdadeiro ou não. E se eu não julgo os vossos, marcados em falhas de extensões “tic tac”, não julguem o meu. E mais importante: Erradiquem a vossa vontade do toque. Já os sábios diziam: “A curiosidade matou o gato, e pode ser que na segunda vida  o gato se vingue. “

Eliane Tchissola -  Instagram

Yes, for me it is. Take away everything but my hair. He is my self-esteem.

Even because I'm in the eyes of the world.

I have fears. One of them? Be discovered. The questions do not frighten me: Is it really yours? Does it hurt to apply? And yours is where? It was a lifetime of training for this crucial moment of my life.

Now, the touch. ohhh the touch. I will never know how to escape the embarrassing situation that takes the "touch". They are real seconds. But years of remorse.

There are moments in life that "touch" can mark for an eternity.

The touch is the moment that can bring more insecurities in the life of an African girl. No one prepares us for it. At that moment you know that the person who touched felt the braid, the net, maybe even the knot. You try to find words to justify your use of extensions.

You think about talking about hair loss problems, but you do not. And in no way can you become fragile in the eyes of anyone. But you know the person is thinking, "What the hell did I just play?" You know the feeling of shiver, strangeness or even disgust. And you really want to explain. But you do not say anything you do not speak. You look at the person and smile, waiting for that moment to pass and understand you and accept what you are like.

"Accept as you are." You really are not. All sewing hides your true self. And there is no harm in this, even because we continually suffer from cultural appropriation, so stealing a little from the European will not hurt. If this helps us to like us better ...

But you're still afraid of the moment of "touch." Because touch is the discovery of our greatest secret. It is the point of a defect. It is the moment when you take away the perfection of the woman without even speaking.

To this day I feel all the touches they have given me throughout life. Some more striking than others. My secret? Avoid or take over. Yet I would love it if there was no touch. I feel as if in judgment, when taken to confirm whether it is true or not. And if I do not judge yours, marked in tic tac extensions, do not judge mine. And most importantly: Eradicate your will from touch. The sages said, "Curiosity killed the cat, and it may be that in the second life the cat takes revenge. "